A gente já sabia que a PlayStation tinha largado PHYSINT e que o Xbox assumiu o projeto. O que não estava claro era o tamanho do buraco que se abriu entre uma coisa e outra.
Agora está.
Em entrevista publicada neste domingo pelo The Washington Post, Hideo Kojima contou que a Sony comunicou em meados de junho que deixaria de financiar o jogo. Segundo ele, a primeira preocupação não foi plataforma, exclusividade ou guerra de console.
Foi a empresa.
A Kojima Productions podia não sobreviver.
O estúdio emprega quase 200 pessoas em Tóquio. E, como Kojima explicou, ser independente não significa existir sem publisher: o negócio depende de acordos de financiamento fechados projeto por projeto.
Esse detalhe muda bastante a leitura do que aconteceu com PHYSINT.
Trocar PlayStation por Xbox parece simples quando a gente olha de fora
No dia 9 de setembro, a história parecia relativamente limpa: a parceria com a PlayStation terminou, a Kojima Productions encontrou outro parceiro e PHYSINT passou a ser publicado pelo Xbox.
Três meses entre uma empresa e outra.
Na cronologia pública, cabe numa linha.
Dentro do estúdio, aparentemente não coube.
Kojima disse ao Post que ficou em choque com a decisão e começou a pensar no que faria com a equipe. Já havia gente contratada especificamente para PHYSINT. Ele reuniu primeiro os líderes, afirmou que pretendia manter o jogo vivo e começou a procurar outra publicadora.
O restante da equipe só soube que o projeto tinha encontrado um novo destino um dia antes do anúncio público de setembro.
Não houve demissões causadas pelo cancelamento, segundo Kojima. Parte da equipe foi realocada para OD, enquanto um grupo menor continuou trabalhando em PHYSINT.
“Independente” não significa independente do dinheiro
Existe uma imagem muito confortável em torno de grandes autores independentes.
O criador sai de uma corporação, abre seu próprio estúdio e finalmente passa a fazer exatamente o que quer.
Bonito.
Só que ainda existe folha de pagamento. Existe contratação. Existe captura de atores. Existe tecnologia. Existe desenvolvimento durante anos antes de existir uma cópia sendo vendida.
E alguém precisa financiar isso.
Kojima descreveu a situação internamente como algo próximo de um barco afundando. O medo era perder funcionários enquanto procurava outra empresa disposta a bancar o projeto.
Isso é especialmente revelador porque estamos falando de Hideo Kojima. Um dos nomes mais conhecidos da indústria, com uma produtora consolidada, uma relação histórica com a Sony e outro projeto — OD — já financiado pela Microsoft.
E nem isso transforma um estúdio independente em uma máquina autossuficiente.
Por que a Sony saiu? Ainda não sabemos
Aqui vale separar as coisas.
Kojima afirma que a Sony não explicou o motivo da decisão.
A Bloomberg publicou anteriormente que a retirada teria relação com orçamento, prazos, rentabilidade e questões de exclusividade. A Kojima Productions contestou publicamente esse relato, chamou essas informações de especulação sem fontes oficiais identificadas e disse que o estúdio segue saudável e lucrativo.
Então não dá para transformar essas possíveis razões em fato.
O fato verificável é mais simples: a Sony encerrou o financiamento em junho; Kojima diz que não recebeu uma justificativa; e o estúdio passou os três meses seguintes procurando outro parceiro.
O Xbox já estava dentro da casa
A Microsoft não apareceu do nada.
O Xbox já publica OD, outro projeto da Kojima Productions. Isso abriu uma porta imediata quando PHYSINT ficou sem financiamento.
Segundo Kojima, ele conversou com outras empresas, mas também procurou rapidamente a Microsoft por causa dessa relação existente. Em 9 de setembro, o Xbox confirmou oficialmente que passaria a publicar PHYSINT.
A parceria foi além do jogo: Microsoft e Kojima Productions também anunciaram colaboração em cinema e televisão.
Uma semana depois, PHYSINT reapareceu no palco do Xbox durante a TGS, agora com Bill Skarsgård confirmado como protagonista.
A parte mais interessante dessa história não é quem “ganhou” PHYSINT
É fácil transformar isso em placar.
Sony perdeu. Xbox ganhou. Um lado comemora, o outro procura culpado.
Pra mim, essa é a parte menos interessante.
O que aconteceu mostra o quanto a estrutura por trás de um grande jogo continua frágil mesmo quando existe um autor famoso na capa.
Uma decisão de financiamento tomada por uma publisher foi suficiente para colocar um projeto importante em dúvida e fazer o fundador de um estúdio com quase 200 pessoas pensar na possibilidade de a empresa não aguentar o impacto.
O jogo sobreviveu porque apareceu outro financiador.
Mas essa é justamente a parte que vale guardar.
Independência criativa e independência financeira são duas coisas completamente diferentes.
PHYSINT continua vivo. A Kojima Productions também.
Por três meses, segundo o próprio Kojima, nenhuma das duas coisas pareceu tão garantida quanto parecia do lado de fora.
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